Texto muito bom sobre zines, tirado do site Mood. Foi escrito por Leo Lima. Quem quiser conferir o original clica aqui.

FANZINE
ROTULANDO O INROTULÁVEL

É difícil começar a falar de fanzines (ou zines, como eles costumam ser chamados nesses tempos de siglas e abreviações) sem que sejam feitas duas perguntas simples: onde e quando surgiu o primeiro fanzine? A resposta gera controvérsias. Zineiros de carteirinha afirmam, sem pestanejar, que o zine que hoje conhecemos surgiu no final da década 70, junto com o movimento punk na Inglaterra. Nada mais justo do que uma publicação quase sempre independente, que preza pela liberdade de expressão e a anarquia de conteúdos, tenha sido incubada naquele que, no início, foi o mais independente, anárquico e anti qualquer-coisa dos movimentos culturais do século XX, certo? O primeiro exemplar de um fanzine pode tranquilamente ter sido escrito ao som de Sex Pistols (se é que é possível fazer alguma coisa com tranquilidade ao som de Sex Pistols). Dando nome aos bois, Leonardo Panço, zineiro, colaborador e editor de pelo menos uma dúzia de fanzines no Rio de Janeiro, escreveu em entrevista por email que “costumava-se” dizer (com todos os sujeitos indefinidos) que o primeiro zine que se tem notícia chamava-se Sniffin´Glue e foi editado nos idos de 1976, na cena do punk inglês.

A questão é nebulosa. Pois, ao lado dessa versão, existe uma outra tão verossímil quanto. Os zines teriam surgido nos EUA, na década de 30 do século XX, em plena grande depressão americana. Numa época de desemprego, fartura do ócio e lei seca, escrever fanzines deveria ser uma excelente maneira de manter o estômago e a cabeça ocupados. De acordo com essa versão, o primeiro fanzine (fan + magazine) da época, então conhecido como fanmag (fanatic + magazine), foi publicado por Ray Palmer para o Science Correspondence Club, em maio de 1930. O fanmag chamava-se The Comet e falava de cinema e literatura de ficção científica. É o que diz zineiro de Porto Alegre Douglas Dickel, editor do Music Zine, que dedicou sua monografia de graduação aos fanzines, em especial ao iconoclasta mailzine gaúcho-chinelão CardosOnLine, ou COL para os mais de 4 mil ex-assinantes do serviço (para quem não sabe o COL acabou). A verdade é que o número de publicações que se detiveram sobre o assunto é pequena, enquanto que os fanzines são inúmeros, nascem, morrem ou ficam meses sem atualização a toda hora. E parece que, enquanto o Ruy Castro não se dedicar a alguns meses de pesquisa, será difícil chegar a algumas conclusões certeiras sobre seu surgimento.

A desorganização e a cultura do zine.

Dessa questão, surge uma outra, uma vez que não adianta tentar estabelecer uma data e local para a criação dos fanzines sem que seja definido o que eles realmente são. Então, o que é um fanzine? Se é que é possível definir algo que abrange tantos assuntos e assume as formas mais experimentais, os fanzines têm pelo menos uma característica fundamental em comum: são veículos de opinião “extra-oficial”. E entenda-se por “extra-oficial” aquilo que não está comprometido com empresas, organizações, governos ou instituições. Por simples inversão, podemos dizer que os fanzines estão a serviço da “desorganização”, da difusão desordenada da informação, sem formatos preestabelecidos ou manuais de redação e estilo, mas que não deixam de criar em torno de si uma organização própria, com temas, público, linguagem e táticas de publicação que vamos chamar aqui de Cultura do Zine. Como toda organização, por mais anárquica que pareça ser, a Cultura do Zine tem seus membros bem definidos. São editores, colaboradores e amigos/leitores que encontram ali um espaço para a divulgação de idéias, erudição alternativa, egotrips e descobertas insondáveis, não fosse a horda de zineiros atrás da última melhor guitar band de todos os tempos da Suécia (e olha que muitos de vocês sabem de qual banda estou falando).
Apesar do desgaste que o termo sofreu, é inevitável enquadrar a Cultura do Zine como uma cultura “alternativa”. Os fanzines estão onde as pautas dos jornais e revistas ainda não chegaram ou, como acontece bastante, acabam chegando a reboque. “Os zines são a eminência parda da imprensa cultural brasileira. Tudo que os editores de cadernos culturais escrevem é dito primeiro pelos fanzines. E muitos destes editores são ex-fanzineiros”, concorda Rodrigo Lariú, dono do midsummer madness, um zine surgido em 1989 que, a partir de 1992, inovou distribuindo fitas demo junto com as edições impressas. O midssumer madness é um exemplo de como um fanzine despretensioso pode tonar-se algo bem maior e, de certa forma, rentável, coisa que em pouquíssimos casos acontece. Hoje, o midsummer madness é uma gravadora de bandas independentes. Divulga, grava e distribui coletâneas e álbuns inéditos para todo o Brasil. O fanzine? “Hoje em dia eu escrevo poucas coisas num pretenso e-zine dentro do site da gravadora”, confessa Lariú.

Paixão, desejo e satisfação: o tesão anárquico de se fazer um zine.

Os fanzines geram a troca de informações entre milhares de adeptos ou fãs e movimentam uma cena underground recheada de novas bandas, ilustradores, jornalistas e escritores em busca de espaço e público. Nesse sentido, o do porquê de sua existência, a produção de fanzines está calcada em três pontos principais: a paixão por um determinado assunto ou prática; o desejo de expressão de idéias, pensamentos, críticas, egotrips ou o que for; e a satisfação pessoal de ver a repercussão pública de algo absolutamente autoral.

Na opinão do produtor musical Rodrigo Quik, que já participou escrevendo em algumas publicações do gênero, “Fanzine é fazer tudo que você não pode nos meios de comunicação tradicionais. É anarquia no bom sentido. É liberdade de expressão verdadeira”. Já o jornalista Tom Leão, zineiro desde os 13 anos e editor do Rio Fanzine (um verdadeiro fanzine dentro de um grande meio de comunicação tradicional, o jornal O Globo), tem um ponto de vista diferente, mas não discordante: “Uma revista vendida em banca não é um fanzine. Qualquer outra forma de expressão escrita, no papel ou numa página da internet, e que circule livremente, é um fanzine. O tema é livre, não precisa ser de música ou quadrinhos, por exemplo”. Rodrigo Lariú completa, “Não sei se alguma coisa que se diz fanzine pode não ser considerado como. Uma das características mais importantes de um fanzine é a liberdade de fazer o que se imagina. Não dá para censurar alguém que diz fazer um fanzine simplesmente dizendo que aquilo não é um fanzine. Eles não têm regras”.

Assim, podemos destacar algumas características básicas dos zines: liberdade de expressão e temas, formatos variados, pequenas tiragens (no caso do papel), busca de satisfação pessoal por parte de editores e colaboradores, divulgação de idéias marcadas por um caráter autoral e ausência de cunho comercial. Esses dados aproximam cada vez mais o surgimento dos fanzines ao movimento punk.

Dos possíveis primórdios.

A dificuldade de definir o que é um fanzine, onde e quando ele surgiu abre precedentes que podem nos levar a tempos distantes. O primeiro impresso de Gutemberg, do final do século XVI, poderia ser um zine? Não, não foi. A História já nos ensinou que era uma Bíblia. Mas a partir da invenção da prensa, é possível que o primeiro “zine” não tenha demorado muito a surgir. Mesmo sem a aproximação com a cultura alternativa – fenômeno moderno que nos remete aos conceitos da indústria cultural de massa -, as principais características das publicações da época podem estar sendo mantidas até hoje pelos fanzines: tiragens modestas, distribuição gratuita e dirigida a um determinado círculo de pessoas e lugares, divulgação de idéias próprias do editor, temática livre e sem compromisso com ideologias oficiais. Pensando assim, podemos ir mais longe e acreditar que o primeiro fanzine pode ter sido um manuscrito com tiragem de 10 exemplares, cunhado à base de papiro, pena e nanquim, feito com a mesma dedicação que um zineiro de hoje teria ao apurar, escrever, diagramar, imprimir, xerocar, montar e distribuir as cópias de seu rebento. Calma, não precisamos forçar essa barra de antigo Egito.

O que é possível dizer sem “achismos” é que a História da imprensa no Brasil pode falar bastante sobre o surgimento dos fanzines por aqui, ou, pelo menos, servir de paralelo para tantas suposições. Até a chegada da família real de Portugal ao Brasil, em 1808, os habitantes da colônia estavam proibidos de publicar qualquer tipo de jornal ou ofício. Censura, isso mesmo, a ponto de não existirem prensas ou corporações de ofício capazes de imprimir documentos do lado de cá do Atlântico. Todos os jornais e informativos que por aqui chegavam vinham da imprensa oficial de Portugal. Com a vinda da corte para o Brasil – fugida às pressas de Napoleão, é sempre bom lembrar – o Rei Dom João VI começa a criar instituições para deixar esse fim de mundo um lugar mais habitável. Surgem o Banco do Brasil, o Jardim Botânico e, entre muitas outras coisas, a Impressão Régia, onde foi impresso o primeiro jornal brasileiro: a Gazeta do Rio de Janeiro, uma mera reedição da Gazeta de Lisboa, repleta de listas de atos oficiais, resumos das folhas européias e louvores à família real. Jornais independentes, escritos por um cidadão qualquer eram proibidos, principalmente se ousassem tocar no assunto política.

Nesse contexto, um brasileiro residente em Londres, conhecido como Hipólito da Costa, publica, também a partir de 1808, o seu Correio Brasiliense, um jornal em língua portuguesa, liberado de qualquer censura, que comentava abertamente aspectos da política do Império relativos ao Brasil. Mesmo com dois ou três meses de atraso, alguns exemplares do Correio Brasiliense chegavam ao Brasil sempre causando grande repercussão e, mais tarde, influenciariam o jornalismo político feito por aqui, liberado apenas em 1821 após a Revolução do Porto. Portanto, não é de hoje que brasileiros vivendo no exterior escrevem textos apreciados pelos daqui.

Existem algumas diferenças básicas entre o que o Correio Brasiliense fazia e o que, dando um salto de quase 200 anos no tempo, os fanzines fazem hoje. Guardadas as devidas proporções, ambos são publicações independentes, com pequenas tiragens, caráter autoral, liberdade de expressão e todas aquelas outras coisas que já foram faladas aqui. O que Hipólito da Costa fazia de Londres com o seu Correio Brasiliense e o que Luciano Vianna e outros faziam até pouco tempo com o London Burning, só para pegar um exemplo, guardam muitas semelhanças e uma diferença crucial: um falava de política e o outro de cultura, música e comportamento. Essa diferença delimita não só dois contextos distantes no tempo, mas abre um precipício que permite que muita gente boa diga que o Correio Brasiliense não era um fanzine e o London Burning é. Os temas são diferentes, a motivação, as idéias e os formatos também são (um era publicado em papel jornal e o outro nem chega a ser um fanzine como o conhecemos, mas sim um e-zine), mas é inegável que a essência de ambos é a mesma. Afinal, fanzine é só aquilo que fala de cultura? Seria uma contradição dizer isso.

Outro exemplo. Na segunda metade do século XIX, a imprensa européia, e depois a brasileira (sempre depois), incorpora um novo recurso: a litogravura, uma técnica de impressão de imagens em pedra que gerava matrizes transpostas com tinta para o papel. Os jornais deixavam de ser um emaranhado de letras miúdas e artigos em forma de tijolo para abrir espaço para desenhos, fotos e caricaturas. Em 1876, surge no Brasil a Revista Ilustrada, um jornal com charges e caricaturas de personalidades da época que falava de política de uma forma que pessoas semi-analfabetas e leigos podiam entender. Angelo Agostini, o ser engajado que desenhava, escrevia, imprimia, publicava e distribuía o jornal, usava um traço cheio de humor e ironia para criticar políticos, empresários e fatos inacreditáveis de um país que então vivia entre a decadência do Império e os ideais republicanos. A Revista Ilustrada foi publicada durante 22 anos, sempre trazendo charges com legendas encadeadas em forma de pequenas estórias. Ela guardava todos os aspectos de um fazine dedicado aos quadrinhos, mas, por ser de outra época, não trazia heróis musculosos, musas voluptuosas e dragões de sete cabeças. A diferença entre a Revista Ilustrada e o fanzine O Animal, uma publicação de quadrinhos alternativos editada há quase dez anos em Nova Friburgo (uma indicação de Tom Leão), está apenas no contexto e, consequentemente, no tema sobre o qual eles foram feitos.

E-zines: a evolução natural?

Se pudéssemos estabelecer uma linha em franca evolução para os fanzines, tudo o que foi falado aqui poderia estar dentro dela. Até aqui, o ponto de chegada para essa evolução é, sem dúvida, a internet. Os fanzines, publicações dispendiosas, trabalhosas e que exigem múltiplas habilidades de seus editores, estão migrando para a rede. O número de e-zines que surgiram nos últimos quatro anos, aproveitando todas as facilidades do mundo digital, deve superar o de publicações independentes de qualquer outra época. “O custo não ajuda e com o advento da internet, os fanzines estão sumindo ou passando a ter uma versão eletrônica. Por um lado é bom, já que o conteúdo pode ser constantemente renovado e as notícias não ficam passadas. Por outro, perdemos visuais interessantes e muita gente fica de fora, já que nem todo mundo tem acesso à Internet”, é o que diz a jornalista Dominique Valansi, que joga em todas as posições como uma das editoras do fanzine impresso Bandit, como colaboradora de uma mão cheia de sites e e-zines (incluindo a MOOD) e ainda blogueira do Dominew Público.

Alexandre Matias, zineiro e jornalista que hoje escreve o Trabalho Sujo, uma espécie de fanzine em forma de coluna publicado no Diário do Povo de Campinas, foi mais eufórico. Em entrevista para outro blogueiro e zineiro, Rodney Brocanelli, Alexandre rendeu loas à internet: “É um novo capítulo na história do fanzine e talvez um dos mais importantes. Passamos por cima dos correios, da cola, da tesoura e do custo. Qualquer um faz um e-zine hoje quase de graça. E isso é ótimo! Mas ainda acho que temos chão pela frente.”

Assim como a televisão não acabou com o rádio, ou as revistas não extinguiram o jornal, todos os entrevistados para essa pensata absolutamente anárquica e autoral concordam que os e-zines não vão substituir ou desaparecer com os fanzines em papel. Apesar de todas as dificuldades de publicação, apesar da euforia com a internet e da efervescência dos muitos e-zines que pipocam por aí todos os dias, apesar de tudo, o papel guarda um amor tátil e tem o seu lugar nas mãos dos leitores que apreciam as possibilidades gráficas que só a celulose permite. Sempre que existir um ser disposto a pagar uma gráfica, detonar o cartucho da impressora ou perder um dia inteiro tirando xerox e montando exemplares de um fanzine, para cada um desses vão existir outros dez dispostos a colaborar com textos e mais uns vinte leitores assíduos, mui amigos do editor, nervosos porque a última edição não respeitou a periodicidade (coisa que já deviam estar acostumados). Essa é a Cultura do Zine.

Nessa teoria da evolução dos meios e formatos cabíveis para a propagação de idéias independentes e subjetivas, Darwin não tem vez. No reino dos fanzines é diferente, sobrevive a democrática anárquica do “faça você mesmo”, não importando se em papel jornal ou couché, tamanho ofício, A4 ou tablóide, e-zine, mailzine ou blog. Vendo assim, chegamos à conclusão que o fanzine é mesmo punk. Mas juro que não voltaremos a essa discussão. Essa egotrip já se alonga demais para quem lê numa tela de computador, certamente gastando pulsos conectado à internet. Se estivesse no papel, você poderia terminar esse texto deitado na cama ou qualquer outro dia dentro de um ônibus no engarrafamento. Como não está, você já tem a opção de imprimir.

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