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– Julio Cortázar

(segundo informa a imprensa)

A moeda cruza e cai cara ou coroa
como a cruz cai Cristo ou os ladrões,
como a cara cai graça ou sombra
como a lua cai estátua ou cão,
e ao pé desse desenredo
o Grande Costume vela.

O Grande Costume com capuz de avestruz vela ao pé do desenredo
para que a moeda caia sempre cara
e toda a cara sempre sombra caia,
para que toda cruz seja Cristo,
para que o pé não saia de sua trilha o Grande Costume vela,
vela com longos dentes pendurados sobre o lábio cuneiforme,
baskerville, elzevir: o Código, esse nome do homem feito História.

– Saudações, maravilhosos meninos norte-americanos
chamados a lavar a lepra hereditária,
irrompendo na sala quando o pai e a mãe viam televisão
com uma saudável, perfeita punhalada, com um golpe de ferro na cabeça
onde Kolynos ou Goodyear esvaziavam seus vermes de manteiga apodrecida.
Saudações a Mervyn Rose, a Sandy Lee, a Roy McCall, a Dick sardento e sujo,
e a Lana Turner junior, capaz de fazer o que a cadeira elétrica não fará.
Saudações, jovens heróis, assassinos de um tempo proxeneta.

Legítima defesa, rapazinho, estão tentando te estuprar, te encurralam
com um buçal de enciclopédias, promoção e De Soto,
com pasta dental perfeita, o telegrama em fórmula de luxo,
com discos de Sinatra ou do Quarteto Húngaro,
vai, derrota-os,
não te vendo palavras, mata-os de verdade para que vivam,
quero dizer: arranca-os pela raiz,
quebra em pedaços a roda das rodas, destrói a cusparadas uma história
que masturba seus macacos ao ritmo das máquinas da Time,
que entroniza princesas de roleta católica,
que engendra putas para desprezá-las no leito legítimo
com um desprezo que não irá jamais a um almirante ou a um bispo.
Oh, crianças assassinas, oh, selvagens tochas
fulminando as tias comedoras de estampas e cúpulas floridas,
os vovôs com medalhas de honra na entreperna,
os papais que pontificam experiência,
as mamães que costuram botões com ar de martírio.
Uma lata de gasolina, um fósforo e se acabou: a fogueira é uma rosa,
começa a noite de São João, hosana!

Enquannto se viver assim, no Grande Costume,
enquanto a história continuar sua cópula gosmenta com a História,
enquanto o tempo for filho do Tempo
e preservarmos as efemérides podres
e os podres heróis de desfile,
as caras serão sombras,
as cruzes serão Cristo
a luz o amargo quilowatt e o amor,
revanche e não leopardo.
(Alguns, poucos, vivem se desacostumando.
São mortos aos montes, mas sempre
há algum que escapa,
que espera na saída da escola
para incentivar o colegial de olhos de gelo
e lhe oferecer um canivete.)

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